Deus sem você…

Publicado: quinta-feira, 3 junho, 2010 em Crônicas
Tags:, , , , ,

Hoje é feriado. Corpus Christi, e eu resolvi comer fora, já que o restaurante popular não abre em feriados. O dia começa com eu achando que Corpus Christi é o mesmo que Finados, o que, logicamente não é e, se você for mais ‘inteligente’ que eu, basta conferir no calendário que existem datas distintas para as duas ocasiões.

De qualquer forma, eu não dou a mínima para discutir a viabilidade ou não deste feriado. Todo ano as pessoas acabam se perguntando o que é. Pra quem se importa, vale a pena. Como, eu não vou falar sobre isso hoje, não vou me ater em teorias e explicações sobre o assunto, mas pra quem quer criticar ou questionar, é importante saber, sempre.

O caso de que falarei, aconteceu há poucos minutos. Como disse, saí para comer fora. Um PF num barzinho, que é o que estava ao alcance dos meus arrochados bolsos. Por uma bagatela de 10 reais, uma picanha, arroz, feijão, salada e uma pepsi. Valeu a pena, mesmo sendo incomparável aos R$ 1,00 do restaurante popular, mas quem mandou existirem feriados…

Ao sair, fui em direção a minha moto. No meio do caminho, um carro estacionado rente à calçada chamou minha atenção. Tinha um adesivo. Um adesivo com Deus. Pensei ‘preciso ler’. Quando li, não acreditei. A pessoa que colou o adesivo deve ser burra o suficiente para não entender, ou, não tem o mínimo de consciência de que ela pode ser alguma coisa.

“Deus sem você é Deus. Você sem Deus é nada.”

Esta frase choca-se com meu eu, como uma marreta. A vontade que tenho é de cair no chão, sangrar, morrer, e ver o que esse tudo-inquestionável-divino realmente significa. Brincadeira. A vontade mesmo é poder conversar com cada um, e questionar sobre como essa convicção torna alguém mais digno.

Vamos por partes então. Qual é o conceito que temos de Deus? Deus é o supremo do ser. O supremo do existir. O que não falha, o que pode tudo, o que tudo cria, o que tudo vê e sabe. Isso é o que sabemos. Na minha concepção, um Deus deveria carregar consigo todas as coisas plausíveis, o que inclui bondade e humildade. Não vale a pena ser um Deus comparável aos antigos reis da monarquia. Faça isso, faça aquilo, eu sou seu rei, você vivem em função da minha existência.

A primeira sentença da frase é até estúpida e óbvia, ela, por si só não é tão bombástica, a não ser pelo fato de não questionarmos, normalmente, a figura do Deus judaico-cristão. O que é algo que se deve fazer, por dignidade. “Deus é Deus, não questione”. O que é a mesma coisa que, não fale nada porque eu tenho uma bomba atômica, uma escopeta, ou fui eu quem te dei um rim. Talvez por isso muitas pessoas exitem em questionar as atitudes de seus pais. “Eu te criei, eu te fiz” e daí por diante.

Um outro aspecto que se deve levar em consideração, é o dedo indicador apontado para os que não tem Deus em suas vidas. É algo do tipo “Ei, você aí que não tem Deus. SEU NADA. Seu merda. Vire gente, aceite Deus, seja alguém. Seja como nós, completos, cheios de tudo que o criador nos deu”. É uma espécie de nepotismo. Nepotismo e bairrismo. Você é dos meus: privilégios. Você não é dos meus: exclusão.

Acho interessante o momento em que as pessoas são tão malucas que sustentam isso. “Você não pode namorar minha (meu) filha(o) porque não é de Deus”. “Você é um bom menino(a), só que precisa aceitar Jesus meu rapaz, sem Jesus você não é nada. Sua vida não tem sentido”. A, então o sentido da vida é Jesus. O sentido da vida tem sido Jesus por dois mil e tantos anos. Por dois mil anos, pessoas continuam reverenciando sem questionar. Vivendo nas coxas. Vivendo para algo que não aconteceu ainda e, ninguém voltou pra contar se é mesmo verdade. Seguiram numa estrada sem saber aonde vai dar, só porque estariam menos sozinhas no percurso. Na realidade, se Deus é tudo sem você, sozinho, ou com você, tanto faz.

Mas, o que faz de mim um nada, sem Deus? Primeiro deixe me dizer o seguinte, em gênesis, nosso Deus sem nenhum objetivo claro cria o homem. Tudo que ele afirma, neste momento é o seguinte:

Formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe as narinas o fôlego da vida, e o homem tornou-se alma vivente (Gen. 2:7).

Por essa perspectiva, teria Deus criado o homem unicamente para que este não fosse nada? Teria Ele criado unicamente para se tivesse alguém que dependesse Dele, incluindo reverências e adorações? Lembre-se do conceito de Deus que se tem, e, o que deveria ser (mediante nossa mínima capacidade de analisar o todo). Agora imagine o seguinte, você, ser humano, criando um robô com capacidade de reflexão e entendimento. Você criaria este robô unicamente para lhe adorar? Para que seus dias tivessem como objetivo a morte, para que enfim, pudesse encontrar com o seu criador e conhecer a outra esfera misteriosa da vida?

Você não é nada. É essa a lição que as pessoas acabam apreendendo com toda essa falta de percepção. Como assim eu não sou nada? De que vale viver então, se a única possibilidade de ser alguma coisa é reverenciando um ser que teria me criado sem o meu consentimento?

Servidão, escravidão, subserviência e agradecimento. É isso que é pregado. Você é impuro, nasceu do pecado. SE você seguir os preceitos da adoração, se viver de joelhos arrependido, se seguir uma série de regras e privações, se limitar suas atitudes em detrimento de um livro escrito há tantos milhares de anos (sem questionar a veracidade e a quantidade de alterações que sofreu), terás um lugar no céu. O que é o céu? Não podes ver. Que certeza ter de que ele existe? Não podes ter também, pois a palavra de Deus basta para tudo. Deus é Deus, esqueceu?

Eu poderia simplesmente dizer que não acredito nessa forma de pensamento, neste Deus apresentado desta forma, na legitimidade da bíblia? Poderia. Por que eu não faço isso? Porque é muito mais inteligente e fácil argumentar as próprias falhas deste sistema. Que divindade é essa que prega a completa desvalorização do que você é? Talvez não pregue, talvez seja uma simples interpretação, mas, veja nas palavras da bíblia se essa interpretação não é plausível:

Todo aquele que crê no Filho tem a vida eterna, mas todo aquele que rejeita o Filho não verá a vida, pois sobre ele permanece a ira de Deus (João, 3:36).

Então meus caros. Você que nada é, e que merece toda a Ira divina por não concordar, aceitar ou simplesmente, se importar com a vinda de uma divindade para ser crucificada na terra, o que fazer frente a tamanha culpa? Nos é induzido a acreditar pelo medo, nos é tirado o direito de ser alguém, por sermos mera criação e, ainda por cima, a punição nos é destinada. Se acha há muito radicalismo na minha fala, pegue este livro que indicam ser o manual do bom-samaritano-e-do-merecimento-para-a-vida-eterna e leia, como quem procura falhas num sistema.

Pra facilitar, vou dar duas dicas. Quem criou tudo foi Deus. Ele é Deus, nunca se esqueça. E ah, quando ele criou, ele sabia que tudo ia acontecer.

Questione mais. Ninguém tem certeza de nada, e, gastar sua existência num mar de humilhações, culpa e servidão, pode estar muito além do máximo que você pode fazer por você e pelas pessoas. Se você não é nada, tente criar pelo menos alguma coisa que lhe faça ter dignidade. Amor próprio, horna, tanto faz. Pra SER algo de maneira honrosa, basta estar satisfeito.

É melhor morrer de pé, do que viver de joelhos (Emiliano Zapata)

About these ads
Comentários
  1. Mateus disse:

    STAKUS

    VAMOS LÁ

    Por que eu, Deus?
    Com certeza você já se perguntou isso, já se sentiu punido ou algo parecido. O questionamento até parece ser valido, mas passa a perder o sentido à medida que quando recorro a essa idéia esbarro numa postura altamente individualista, vitimista e egoísta na qual alguém sempre tem que ser responsável pelos meus erros ou acertos. Ou ainda naquela falsa idéia de que as coisas boas que fazemos devem impedir que algo ruim possa acontecer.
    O Deus retratado pela maioria das pessoas, por uma interpretação errada ou mesmo por ser oportuno, é supostamente um Deus de poder absoluto e de amor perfeito, mas que se transforma num anacronismo impossível se levarmos em conta essas questões.
    Então pra refletir um pouquinho sobre essa história de Deus, o q era ou deixou de ser, um revolucionário, político, missionário, ou seja, lá o que for… eu fico com as palavras de Albert Einstein sobre Manhatma Gandi: “as gerações por vir terão dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra”.
    Então ñ sei se deus realmente existe e se precisa ou ñ da nossa existência, mas se existir, com certeza ele será melhor com nossa presença. Agora, se ele der uma aparecidinha de vez em quando vai ficar mais fácil pra todos acreditarem. uhauhauaha

  2. Saulo disse:

    Me lembrei de uma passagem do filme Fahrenheit 451, uma das boas descobertas dos últimos meses, em que o protagonista fica entre duas escolhas para contrariar um regime totalitário: sabotar o sistema dentro do sistema, usar “fogo contra fogo”, ou se refugiar em uma pequena comunidade, onde pessoas vivem com os seus próprios ideais e sem chamar a atenção. Aqui, diante de uma hegemonia religiosa, você opta pela primeira ação. É uma alternativa em que muitos se fundaram e terminaram por construir argumentos de desolar frades e teólogos. As descobertas de nós no fio lógico da tradição ou na ausência de lógica de alguns segmentos vieram bem a calhar. O problema, ao jogar com o jogado, é às vezes errar o erro que se refuta. Note que este entendimento religioso crê em uma sacralidade que acompanhe exatamente o nosso juízo – razão, comportamento, emoções. deus é o que gostaríamos de ser, faz o que poderíamos fazer. Uma projeção, portanto, não um delírio, um desejo, não um sonho. Faz com que deus seja puxado para o homem e se porte como um homem, não com que o homem se sublime em deus e se porte como uma força. E criticar esta forma de pensamento na mesma linha é repeti-la: acerta-se ainda errando. Talvez seja o caso de deixar que eles acreditem falar de algo além deles mesmos e se fazer um percurso próprio para outra compreensão.

  3. Patrick disse:

    Show, curti o texto man! Não vou comentar com detalhes porque esse papo rende demais e sinceramente é saturado, não digo sobre seu texto e sim sobre o cotidiano!

  4. raoni disse:

    Concordo com Patrick que esse é um tema desgastado pelo cotidiano. Mas… a verdade é que, sempre que vejo um desses adesivos (existe um ótimo: Quando deus quer é assim, colado num carro caríssimo, coisa de tempos dos Faraós) me sinto sinceramente incomodado, por vezes até ofendido.
    Justamente por ser batido ele é extremamente perigoso. Existem crucifixos pregados no senado e nas escolas a doutrina cristã é clara e largamente aplicada em detrimento das demais. Cadê a porra (pode xingar aqui?) do estado laico? Não é uma questão superficial, é FUNDAMENTAL! Agreções diárias veladas ou não por todos os lados…isso precisa (e pode, é claro) parar.
    Abraço, filho.

    ps.: Esse texto não seria nada sem minha ajuda (risos).

  5. Fabricio disse:

    Muito bom o texto, ótima argumentação que acaba por mostrar mais um (entre tantos) paradoxos que encontramos ao analisarmos as “palavras sagradas” segundo a visão dos que as têm pregado durante toda a história.

    Ainda por cima, estes autocolantes divinos podem esconder um inimigo silencioso: a uns tempos atrás, recebi um email que citava pessoas que passaram a utilizar estes adesivos nos carros com o intuito de evitar blitz, já que a incidência de pessoas religiosas consumidoras de álcool são baixas. Ainda segundo o próprio email, testemunhos de policiais confirmavam a tese de que carros com estes adesivos eram excusados de parar nas blitzes para “poupar trabalho desnecessário” dos agentes. Imaginem agora o que se pode esconder por trás dessa “roupagem” de crente.

    Grande abraço,

    Fabricio

  6. Jack Leinz disse:

    Anderson, por um acaso grotesco estava passando por uma comunidade sobre ateus, e acompanhei um debate e me deparei com o seu modo de ver a vida e a sua opnião sobre um Deus que causa tanta polêmica para quem não tem a fé suficiente para crêr.
    O engraçado Anderson, é que tudo na vida é baseado de fé. Quando estamos para fazer algo temos a fé que vai dar certo. Quando estamos aguardando um parente que está em viagem, ficamos confiado na fé que as estradas e os perigos não os rondam. Agora, como é possível não ter a fé que Deus existe, e que Ele é a essência da vida? Como é possível ver um filho ser gerado no ventre duma mulher, nascer exalando saúde e não ter a fé de quem foi uma força superior Criadora de todas as maravilhas que SEUS OLHOS consegue enxergar? Desculpe-me, mas esse texto acima, li trechos e parei.Esse é seu blog, suas palavras, seu domínio, seu pensamento, mas como alguém por ir pelos ideais de alguém sem fé? É como um carro sem motor.

    • primitivismo disse:

      Jack, boa tarde.
      Estarei disposto a discutir com você se você estiver disposta a ouvir. Percebo sua fé, respeito sua fé. Você leu trechos e parou? Leia todo, sem preconceito, e me diga depois, com certeza, o que acha. Um problema nas pessoas é a incapacidade de observar outras idéias, ter outras leituras sobre a vida. Isso precede a intolerância. Viver sem Deus é como um carro sem motor? Não ligo em ser uma bicicleta, ligo em fazer algo sem pensar a respeito. Ser uma balsa sem velas no oceano, sendo guiado pela força das ondas, sem conhecimento, sem reflexão, sem atitude. Se quiser, conversamos.

  7. Anderson disse:

    Ah,texto excelente.Mas,uma pequena correção: a frase no final do texto é uma citação conhecida de Mikhail Bakunin,não de Emiliano Zapata.

  8. Paloma disse:

    Não vou me apegar ao assunto pq há mts outros questionamento sobre Deus… mas, curtir velho! Se nada der certo, vc vira escritor…
    P.s: Genial a última frase!
    Bjocas da irmãzoca!

  9. Glauber disse:

    Gostei do texto, mas não terei tempo de fazer um comentário decente agora, pois já é 1h da madrugada. Então, para facilitar minha vida faço minhas as palavras de Epicuro, que viveu a 342 anos antes de Cristo.

    “Deus quer prevenir o mal e não consegue?
    Então ele não é onipotente.
    Ele consegue mas não quer?
    Então ele é malevolente.
    Ele quer e ele consegue?
    Então por que o mal acontece?
    Ele não quer e não consegue?
    Então porque chama-lo de Deus?”

  10. Jack Leinz disse:

    Anderson,
    Obrigado pelo respeito a minha fé!
    Tenho uma grande curiosidade sobre você(s) descrentes.
    Qual sentido tem sua vida? Buscar mais dignidade e honra? Para quê e para quem? Para satisfazer seu ego sem nenhum objetivo?

    Vivemos baseado em fé assim como disse no comentário anterior, é o modo universal de encarar a vida.

  11. Jack Leinz disse:

    Obs… Li seu texto.

  12. Danilo disse:

    Otimo texto.
    Não pretende da respostas nem tem a prepotência de “Deus, um delírio” que “prega” o ateísmo
    A razão e a sinceridade….como abrir mão delas?
    e como evitar que elas nos conduza para a loucura e a solidão?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s